Brasil deve crescer 2,4% em 2026, mas dívida pode chegar a 97,8% do PIB, aponta FMI

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A economia brasileira deverá crescer 2,4% em 2026, impulsionada pela resistência do consumo interno, pelo apoio fiscal e pelos ganhos obtidos com a alta internacional do petróleo. A projeção faz parte da Consulta do Artigo IV de 2026, divulgada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Apesar da perspectiva positiva para a atividade econômica, o relatório chama atenção para dois desafios: a inflação ainda elevada e o avanço da dívida pública. O FMI estima que a inflação ao consumidor encerre 2026 em 5,6%, acima da meta de 3% e do limite superior de tolerância, estabelecido em 4,5%.
Já a dívida bruta do governo geral, calculada conforme a metodologia internacional utilizada pelo Fundo, deverá atingir 97,8% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano.
Principais projeções para o Brasil
Entre os principais indicadores apresentados pelo FMI estão:
- crescimento do PIB de 2,4% em 2026;
- expansão econômica próxima de 2,5% ao ano no médio prazo;
- inflação de 5,6% no encerramento de 2026;
- retorno da inflação à meta de 3% somente em meados de 2028;
- dívida bruta equivalente a 97,8% do PIB em 2026;
- possibilidade de a dívida alcançar aproximadamente 106% do PIB em 2035, caso não sejam adotadas medidas adicionais.
No médio prazo, o crescimento brasileiro deverá ser favorecido pela normalização da política monetária, pelo aumento da produção de petróleo e pelos ganhos de produtividade esperados com a implementação da reforma tributária aprovada em 2023.
Petróleo ajuda a sustentar a atividade econômica
O Brasil apresenta uma condição relativamente favorável diante da alta dos preços globais da energia por ser um exportador líquido de petróleo e possuir uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis.
Segundo o FMI, os termos de troca mais favoráveis e o aumento das receitas relacionadas ao petróleo ajudaram a reduzir parte dos impactos da desaceleração internacional e das tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O Fundo recomenda, entretanto, que as receitas extraordinárias provenientes do petróleo sejam utilizadas para melhorar o resultado fiscal e reduzir o endividamento. Na avaliação da instituição, empregar integralmente esses recursos em subsídios para combustíveis pode comprometer o esforço necessário para estabilizar as contas públicas.
FMI recomenda ajuste fiscal mais amplo
Para colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável de redução, o FMI propõe um ajuste fiscal equivalente a 3 pontos percentuais do PIB entre 2026 e 2031.
A estratégia sugerida prevê uma melhora gradual do resultado primário, até alcançar superávit de 2,5% do PIB em 2031. Entre as medidas citadas no relatório estão:
- redução de benefícios tributários considerados caros, ineficientes ou regressivos;
- revisão da vinculação de benefícios previdenciários e assistenciais ao salário mínimo;
- controle mais rigoroso do crescimento das despesas obrigatórias;
- revisão dos pisos constitucionais de gastos com saúde e educação;
- criação de uma âncora de médio prazo para a dívida pública;
- redução das exceções às regras fiscais.
As recomendações representam a avaliação técnica do FMI e dependem de decisões políticas, legislativas e institucionais para uma eventual implementação.
Com o ajuste fiscal e a adoção de reformas capazes de elevar a produtividade, o Fundo considera possível reduzir a dívida bruta para uma referência próxima de 85% do PIB no longo prazo. Sem medidas adicionais, o cenário-base indica dívida ao redor de 105% do PIB em 2031 e próxima de 106% em 2035.
Por que os números do FMI e do Banco Central são diferentes?
A estimativa do FMI não é diretamente comparável ao indicador divulgado pelo Banco Central. O Fundo utiliza uma metodologia internacional mais abrangente para calcular a dívida bruta do governo geral.
Pelos dados do Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral estava em 81,1% do PIB em maio de 2026, totalizando aproximadamente R$ 10,6 trilhões.
Além das diferenças metodológicas, os números correspondem a períodos distintos: o percentual do Banco Central representa um dado observado em maio, enquanto os 97,8% apresentados pelo FMI são uma projeção para o encerramento de 2026.
Inflação exige cautela na política de juros
O relatório avalia que a postura cautelosa do Banco Central permanece adequada diante das expectativas de inflação ainda acima da meta.
A alta dos preços internacionais da energia, as incertezas fiscais e os possíveis impactos das tensões geopolíticas podem dificultar o processo de desinflação. Por isso, o FMI considera necessário manter flexibilidade nas próximas decisões sobre a taxa Selic.
A expectativa é que a inflação recue gradualmente e alcance a meta de 3% apenas em meados de 2028.
Comércio exterior passa por transformação
O relatório também destaca mudanças importantes na estrutura do comércio exterior brasileiro. A China se consolidou como o principal destino das exportações do país, respondendo por aproximadamente 30% das vendas externas brasileiras em 2025, especialmente de soja e minério de ferro.
Em relação ao acordo entre Mercosul e União Europeia, o FMI estima que a redução de tarifas poderá elevar as exportações brasileiras destinadas ao bloco europeu em até 14% no longo prazo, com maiores ganhos para produtos agrícolas e agroindustriais. O impacto estimado sobre a renda real brasileira seria de aproximadamente 0,22% em comparação com um cenário sem o acordo.
Riscos continuam elevados
Apesar da resistência demonstrada pela economia brasileira, o cenário permanece sujeito a riscos relevantes.
Uma intensificação dos conflitos no Oriente Médio poderia provocar novas altas nos preços do petróleo, ampliar as pressões inflacionárias e manter os juros internacionais elevados por mais tempo. Tensões comerciais também podem prejudicar os investimentos e as exportações.
Internamente, um esforço fiscal menor do que o esperado poderia aumentar a percepção de risco, elevar o custo de financiamento da dívida pública e reduzir o espaço para investimentos privados.
O diagnóstico do FMI mostra, portanto, um cenário de crescimento moderado e maior capacidade de enfrentar choques externos, mas acompanhado de desafios fiscais que exigirão atenção nos próximos anos. A evolução da dívida, o controle da inflação e a continuidade das reformas serão determinantes para a sustentabilidade da economia brasileira.
Fonte: PODER 360